O Valmir Santos me ligou pedindo para eu escrever uma matéria para o jornal da Mostra, com o numero de caracteres pedido não dava para escrever o que havia no universo das minhas lembranças, então escrevi uma crônica que posto aqui!!
latino-americano
mostra latino-americana de teatro de grupo
expediente
Editor e redator Valmir Santos Editor de arte Marcelo Meniquelli Críticos Jorge Louraço Figueira,
José Henríquez, Teresita Galimany e Valmir Santos
2ª Edição São Paulo
21 de abril de 2010
O teatro não vivido
Criança retratada pelo artista brasileiro em Luanda
Acompanhe o relato do diretor e dramaturgo
brasileiro Luiz Valcazaras sobre sua
convivência, em 2008, com o povo e a cultura
do país africano representado na Mostra
Fui para a África.
Destino: Luanda, Angola.
Uma produtora convidou-me a dirigir um filme institucional para o governo. O que seriam 20 dias acabou se transformando em dois meses, contando com minhas fugas - pois até aquele momento ninguém sabia onde eu me escondia.
Como encenador, e estando em visita a uma terra rica na tradição oral, criei expectativas para delinear a investigação do N.I.Te. (Núcleo de Investigação Teatral), o meu grupo, no que se refere à Narrativa como Instrumentalização do Ator.
Mas pisar a nossa romantizada “Mama África” não foi o que esperava minha vã filosofia.
O choque de cultura me abriu rachaduras, deixando escoar meu objetivo lúdico e encarar uma realidade dura. Quem sabe tenha sido essa a maior experiência para uma reflexão estética sobre o meu trabalho.
Sei da insatisfação de alguns angolanos quanto à visão estrangeira dos visitantes que tentam exportar só a imagem do sofrimento
e da miséria. Mas, diante de uma “máscara pós-guerra”, rústica e assustadora que nos é apresentada no cotidiano, fica difícil perfurar
essa grossa casca para sorver uma seiva fina.
O “ir” e “vir” não me era convencionalmente livre, dependia de motorista ou de colegas cansados pelo trabalho exaustivo. Achei
que poderia descer na avenida, levantar a mão e pegar um táxi para ir ao centro da cidade em busca de contato com algum grupo
de teatro, mas a rústica máscara se levantava com um sorriso de escárnio.
O lindo céu de Luanda derretia-se em dourado no final de tarde. Estava eu em frente da casa onde fiquei, um terreno de terra batida e um enorme barracão, apenas com a cobertura de zinco. Observei uma movimentação de adolescentes com ações familiares a um ensaio. Era teatro.
Lentamente, aproximei-me e, sentando na terra ao lado de um pilar, fiquei por um longo tempo ali, submetido a olhares desconfiados.
Depois de horas um garotinho indagou: “Gosta de teatro?”. É a minha profissão, respondi. Com expressão de surpresa ele correu para o jovem diretor. Ao passar a informação, todos, cautelosos, foram se aproximando e sentando para formar um grande círculo.
Conversamos, trocamos e rimos muito, até o hálito quente da noite nos envolver por completo.
Nos dias que se seguiram eu fugia da produtora na hora da edição e ninguém me encontrava.
Estava escondido no outro quarteirão, orientando o grupo sob o quente barracão de zinco.
Não vivi um encontro com um possível movimento do teatro angolano, mas dessa simples convivência ficou-me uma certeza: se em Luanda existe um raio tão forte, que pode rachar uma máscara rústica, esse raio só pode se chamar: “alegria”.
Luiz Valcazaras é diretor e dramaturgo
fundador do N.I.Te. (Núcleo de investigação Teatral). Entre
os seus trabalhos, destacam-se Abre as asas sobre nós,
Dança lenta no local do crime e Anjo duro.
mostra latino-americana de teatro de grupo Foto Tainá Azeredo Formatação do projeto Ney Piacentini Coordenação geral Alexandre Roit Assessoria de projeto Marlene Salgado Produção geral
Alexandre Kavanji Gestão Luiz Amorim Assistente de gestão Tetêmbua Dandara Produção executiva Adriano Rizk Direção técnica Dudu Oliveira Logística de hospedagem e alimenta ção Cláudia Burbulhan
Logística de transporte Rodrigo Fidélis Produção local e recepção Alessandra Cavagna, Anike Laurita de Souza, Camila Scudeler, Ioneis Lima, Leandro Ivo, Othoniel Siqueira, Rafael Schiesari, Raíssa
Gregori, Rimenna Procópio, Teca Spera e Vanessa Portugal Coordenação das mesas e demonstrações Marília Carbonari Coordenação do Espa ço da Mostra Tainá Azeredo, Maurício Hiroshi, Paulo ArcuriAssessoria de Imprensa
Quatro Elementos Comunicação & Mkt. Cultural Design Gráfico Pedro Penafiel
